Terça-feira, 23 de  julho de  2019 

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Recuos de Bolsonaro demonstram despreparo para dirigir o país

As trapalhadas e o despreparo já são a marca do início da gestão do governo de extrema direita de Jair Bolsonaro (PSL-RJ). Pelo menos nove medidas foram desmentidas, retiradas de pauta ou revistas, alcançando uma média de um recuo por dia. A falta de planejamento do primeiro escalão do governo e as divergências internas refletem o despreparo não apenas de Bolsonaro, mas de toda sua equipe ministerial, logo no início da gestão.

Em apenas 10 dias, Bolsonaro e seus ministros, além de desistirem de anunciar metas para os 100 dias de governo, recuaram no aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF); no edital que permitia erros, propagandas e publicações sem bibliografia em livros do MEC; na paralisação da reforma agrária no País; na demissão de funcionários da Casa Civil com o objetivo de “despetizar” o governo; na implantação de uma base militar norte-americana em território brasileiro; e na paralisação das negociações da compra da Embraer pela Boeing.

Em sua estreia no Palácio do Planalto, no dia 1º de janeiro, Bolsonaro assinou o decreto que reajustava o salário mínimo de R$ 954 para R$ 998, valor abaixo dos R$ 1.006 previstos. O anúncio foi feito horas depois que o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, tinha garantido que as primeiras ações sairiam somente a partir do dia seguinte.

O principal auxiliar político de Bolsonaro também foi responsável por desmentir o presidente sobre o aumento do IOF e pela chamada "despetização" dos servidores públicos, com a exoneração de cerca de 320 servidores, o que travou o funcionamento da Casa Civil.

Além disso, o governo Bolsonaro já teve a primeira baixa com a saída do gestor da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), Alex Carneiro, que teria entrado em conflito sobre nomeações de cargos na entidade com o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

Para um ex-deputado que esteve na Câmara Federal por 28 anos, os recuos de Bolsonaro são graves e demonstram a total falta de capacidade política e técnica para governar um país. É o que avalia o cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), Aldo Fornazieri.

“Não há coesão neste governo. Seus próprios eleitores estão perplexos e percebendo que Bolsonaro não tem capacidade de governar, e isto é uma péssima sinalização para o país que precisa se recuperar da crise econômica e política. É preciso um governo mais eficiente, articulado e conectado”, diz Aldo Fornazieri.

Há um grande risco de o presidente perder a credibilidade porque ele se comporta como um arruaceiro político, que não tem dimensão de conferir a dignidade que o cargo merece- Aldo Fornazieri

O secretário-adjunto de Relações Internacionais da CUT, Ariovaldo de Camargo, acrescenta que a característica do novo governo de Bolsonaro é abrir mão de formar uma equipe qualificada para nomear amigos e parentes e, com isso, ter uma base política que coloque em prática as pautas que dialogam com o sistema financeiro e com o que tem de mais atrasado em políticas sociais.

É um governo que não desceu do palanque para encarar e resolver de fato os problemas políticos, econômicos e sociais do país- Ariovaldo de Camargo

“Bolsonaro busca apenas atender ao seu mentor econômico ultraliberal, Paulo Guedes, que tem o aval da parcela mais conservadora da sociedade, da elite, do sistema financeiro, do agronegócio, para colocar em prática o modelo entreguista de governo, negando o histórico ‘nacionalista’ característico dos militares. Para isso, nomeia amigos em cargos estratégicos”, diz o dirigente, se referindo à indicação de um "amigo particular" de Bolsonaro para a gerência executiva de Inteligência e Segurança Corporativa da Petrobras, Carlos Victor Guerra Nagem.

Já para João Cayres, secretário-geral da CUT-SP, as trapalhadas deste início de governo já eram esperadas, pois, segundo ele, durante os 28 anos em que Bolsonaro foi parlamentar no Legislativo, nunca apresentou um projeto que tenha sido aprovado pela Câmara e sequer se aprofundou no entendimento de como funciona a máquina pública.

“Ele deveria conhecer minimamente como funciona ou, pelo menos, convidar para cargos ministeriais pessoas mais preparadas. A maioria dos ministros passou por um período de transição de suas pastas com os antecessores do governo ilegítimo de Temer e não podem alegar desconhecimento do assunto”, diz Cayres.

Para o dirigente, está cada vez mais claro que Bolsonaro não conhece nada e não compreende as consequências do que anuncia, por isso tem de voltar atrás sempre. “Ele está até mesmo proibido de falar sobre economia, foi ‘retirado’ do Twitter e mesmo assim continua falando bobagens. O que a gente vê é um governo sem rumo, que fala em ‘despetização’ do governo e esquece que o PT já saiu do poder em 2016”.

É um início de governo que se mostra inconsequente- João Cayres

Bolsonaro e os generais

O cientista político Aldo Fornazieri reforça a avaliação do secretário-geral da CUT-SP e avalia que o método empregado por Bolsonaro de criar confusão para governar é uma péssima ideia que deve ser estancada pelos generais que o cercam, apesar das discordâncias entre a equipe econômica e os ministros militares em relação aos rumos que o país deve tomar na economia.

“O governo Bolsonaro está aliado ao capital internacional ultraliberal, mas os militares têm uma característica mais nacionalista e, se houver uma crise política, prejudica o grande capital, que, por sua vez, será questionado pela população. Ao mesmo tempo, as Forças Armadas também serão questionadas, já que elas obtiveram o retorno da confiança da população. Não será bom para nenhuma das partes se continuar esse método de governar pela confusão”.

Para Fornazieri, os generais Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), e o general Carlos Alberto dos Santos Cruz, da Secretaria de Governo, e até o próprio vice-presidente Hamilton Mourão, embora cause desconforto a Bolsonaro, vão conter cada vez mais os movimentos e discursos do presidente.

“Mas isso não resolve os problemas do Brasil, que precisa de credibilidade política e que Bolsonaro está jogando fora. Isso é muito ruim para o país”, diz o professor.

Vai ter resistência

O secretário-adjunto de Relações Internacionais da CUT, Ariovaldo de Camargo, acredita que a política econômica já sinalizada por Bolsonaro e sua equipe neste início de governo vão prejudicar ainda mais os trabalhadores e trabalhadoras, que já foram duramente penalizados no governo do ilegítimo Michel Temer, com o aprofundamento da crise econômica e a aprovação da reforma Trabalhista, que acabou com mais de 100 itens da CLT e retirou direitos históricos.

“Com a sinalização de uma proposta de reforma da Previdência pior que a apresentada por Temer, com o discurso de que a reforma Trabalhista será aprofundada até chegar à informalidade e com o fim da política de valorização do salário mínimo, que já foi reajustado abaixo do previsto, não há como ter dúvida de que será um ano de muita luta para a classe trabalhadora”, diz Ariovaldo.

“Vai haver muita mobilização e resistência dos movimentos sociais e da CUT, que se colocará na vanguarda do movimento sindical para impedir a retirada de direitos. Já são 50 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza e retomaremos o processo de recuperação da dignidade das pessoas”, conclui o dirigente.

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